sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A Fronteira da Forma


"Cada época sonha a seguinte, sob a forma de imagens em que o arcaico, impregnando-se do novo, gera a utopia.” Walter Benjamin

Desde a remota construção das pirâmides no Egito, até o mais recente e moderno edifício de aço, uma admirável característica da humanidade está na sua extraordinária capacidade artística de sintetizar uma época por meio da arquitetura.

Movido por essa constatação que adquiri em um momento de "insight", não me contive e fui fazer uma visita a uma livraria famosa de São Paulo, com o objetivo de comprar algum livro que descrevesse a história dessa milenar atividade. Porém, lá encontrei uma edição que ilustrava o que de mais contemporâneo há sobre arquitetura na Europa dos dias de hoje... Tamanho foi o interesse em me aprofundar no assunto, que resolvi consultar peritos no tema na tentativa de compreender por que os arquitetos de vanguarda projetam e criam obras no mínimo bastante arrojadas.

Contemporany Jewish Museum - São Francisco - CA - EUA - 2008

Rodrigo Queiroz, professor e doutor de projetos de arquitetura da FAU-USP, explicou que para compreender a arquitetura contemporânea é preciso entender as fases e as transformações arquitetônicas dos últimos 100 anos. "A arquitetura dos dias de hoje é uma continuidade da arquitetura pós-moderna, que começou nos anos 1960 e durou até o início da década de 1990. Tinha por objetivo criticar a ideologia do movimento moderno, que foi uma denominação para a arquitetura produzida até o fim dos anos 1950", explica. Entretanto, será que a arquitetura do século XXI, que é denominada como contemporânea, está ligada a algum movimento que pretenda criticar algo?

A frase “tudo que é sólido desmancha no ar”, do sociólogo americano Marshall Berman pontua o fim dos movimentos arquitetônicos do século XX. E quem a explica é Luís Henrique Haas Luccas, arquiteto, mestre e doutor em arquitetura pela UFRGS. “A meta da arquitetura produzida no século XX, era difundir uma arte que pudesse servir de modelo a uma construção social considerada perfeita e padronizada”, disse e completa: “entretanto, com a contra-cultura, nos anos 1960, esses valores se "dissolveram", e o ideal de arquitetura passou a ser o pós-moderno, que foi uma crítica a idéia de padronização da arquitetura de até então", conclui.

Studio Wiel - Mallorca - Espanha - 2003

A tentativa de se estabelecer um denominador comum na arquitetura moderna perde força na década de 1970, quando a sociedade passa por um processo de pluralidade e modernização tão intensa nos campos da cultura, da política e das artes, que toda forma de se impor um estilo em comum soava absurda. “Os axiomas da arquitetura moderna gradualmente deram lugar à diversificação de linguagens”, diz Luiz Henrique. Dentro desse contexto nasce a idéia da arquitetura pós-moderna, e marca o fim das ideologias na arquitetura. “A arquitetura pós-moderna declara o fim de todos os sistemas de significados” (Manuel Castells).

Mas qual seria então a proposta da arquitetura contemporânea? Nenhuma. Com radical ruptura de toda e qualquer definição de padrões, os arautos da arquitetura do século XXI buscam em grande parte as inspirações individuais. “É notório que o caminho para uma arquitetura atual passa pelo retorno da abstração, e ocupa um lugar destacado como forma de transpor o existente, o prosseguir”, abstrai Luiz Henrique, e completa: "Vale salientar, também, que a valorização do consumo e das tecnologias de comunicação pela sociedade contribuem para o entusiasmo da criação arquitetônica. Não resta dúvida que merecerá ser definida como contemporânea a arquitetura representativa do momento atual, que retrata o patamar tecnológico e a sensibilidade estética de nosso tempo”, explica.

Nítidos exemplos da nova “onda” arquitetônica podem ser conferidas em diversas partes do mundo. O “Royal Ontário Museum” – Canadá - 2007, e o “Studio Wiel” – Espanha - 2003, ambos concebidos pelo arquiteto americano Wendy James, como também, o “Contemporany Jewish Museum”, da empresa WRNS Arquitecture, inclusive inaugurado em junho deste ano na cidade de São Francisco – EUA, são ótimas referências.

A arquitetura contemporânea não pretende servir de modelo a futuros movimentos, ou criticar as anteriores. Entretanto, se a arquitetura contemporânea carrega consigo alguma síntese da época atual, já não se sabe ao certo, por conta de sua recente aparição nos diversos cenários da sociedade. Rodrigo Queirós explica que “Somente quando esta época se tornar um passado distante saberemos o que ela nos representou em termos de arquitetura", pontua.

Royal Ontario Museum - Toronto - Canadá - 2007