Para quem quer "mergulhar fundo" na literatura do Bauman (sociólogo contemporâneo), é essencial ler o livro Modernidade e Holocausto. Eu não o li, mas quem recomenda é um filósofo brasileiro chamado Luís Felipe Pondé (do qual simpatizo muito), que dá aulas na PUC e na FAAP. Bauman diz no seu livro que o evento mais devastador para a história da cultura ocidental é o holocausto nazista, que é um divisor de águas. Mas antes de explicar o porquê, preciso dizer o que significa, para o Bauman, o que ele chama de "modernidade sólida" e "modernidade líquida". "Modernidade sólida" é o período que representa a idade da razão (Século XV ao XX). São idéias que surgiram após a idade média, por mentes de cientistas como Francis Bacon e Johannes Kepler.
Essas idéias evoluiram (com o Iluminismo, por exemplo) e duraram até os anos 1990. A ideologia que período da razão constituiu, principalmente e com mais força nos séculos XIX e XX, era o de reorganizar o mundo de tal forma que as pessoas viessem a se comportar racionalmente, a buscar a felicidade sem correr o risco de fazer escolhas erradas. (ao contrário do que foi a Idade Média, que pregrava um mundo de ignorância, preconceitos, superstição, matança e misticismo). No século XIX, a razão (incluindo a ética e a moral) eram a plataforma do estado, da política, dos direitos civis, do papel do homem na sociedade e de inclusive obrigações da igreja.
Em outro campo, os artistas e arquitetos se inspiravam no progresso tecnocientifico para criar sua obra. (nasceram muitos movimentos na época) Todos os valores culturais estavam bem definidos, portanto: "modernidade sólida". Entretanto, como disse acima, ela durou até os anos 1990, quando ocorre uma deteriorização de todas as instituições e valores que citei.Basta analistar os fatos: na política brasileira assistimos o espetáculo da corrupção (o que era o oposto no período Getulista); na política americana vemos o show da desregulamentação e da especulação financeira.
Os dogmas da igreja estão mais desacreditados do que nunca, por conta do avanço das pesquisas em genética e biotecnologia. No campo da moral, não há mais um papel para o homem (aquele sujeito de terno, gravata e chapéu). Portanto, é o que o Bauman chama da "modernidade líquida". Marshall Berman, um sociólogo ainda vivo, diz: "Tudo o que é sólido desmancha no ar". Ou seja: não há mais dogmas, crenças, instituições. Não há nenhuma referência clara para onde a sociedade deva seguir. No campo das artes, não existem idéias que inspirem movimentos revolucionários como as que surgiram na Belle Époque e Renascença (para citar um exemplo mais antigo).
Mas então porque tudo isso ocorreu? Voltemos ao divisor de águas que foi o holocausto nazista. Imagine a seguinte cena, Lobo: Um soldado nazista acorda pela manhã, toma seu café, beija os filhos, a esposa, e sai para trabalhar no genocídio de judeus em um campo de concentração. Isso extrapola os limites da realidade e da razão; e para Bauman, esse é o ponto crucial da decadência da "modernidade sólida".
Para mim, Bauman é um grande pensador contemporâneo; simpatizo demais com seu raciocínio. Acho toda sua crítica muito construtiva, principalmente para os artistas que buscam inspiração.


