sábado, 25 de julho de 2009

Zygmunt Bauman, Holocausto e a Arte Contemporânea


Para quem quer "mergulhar fundo" na literatura do Bauman (sociólogo contemporâneo), é essencial ler o livro Modernidade e Holocausto. Eu não o li, mas quem recomenda é um filósofo brasileiro chamado Luís Felipe Pondé (do qual simpatizo muito), que dá aulas na PUC e na FAAP. Bauman diz no seu livro que o evento mais devastador para a história da cultura ocidental é o holocausto nazista, que é um divisor de águas. Mas antes de explicar o porquê, preciso dizer o que significa, para o Bauman, o que ele chama de "modernidade sólida" e "modernidade líquida". "Modernidade sólida" é o período que representa a idade da razão (Século XV ao XX). São idéias que surgiram após a idade média, por mentes de cientistas como Francis Bacon e Johannes Kepler.

Essas idéias evoluiram (com o Iluminismo, por exemplo) e duraram até os anos 1990. A ideologia que período da razão constituiu, principalmente e com mais força nos séculos XIX e XX, era o de reorganizar o mundo de tal forma que as pessoas viessem a se comportar racionalmente, a buscar a felicidade sem correr o risco de fazer escolhas erradas. (ao contrário do que foi a Idade Média, que pregrava um mundo de ignorância, preconceitos, superstição, matança e misticismo). No século XIX, a razão (incluindo a ética e a moral) eram a plataforma do estado, da política, dos direitos civis, do papel do homem na sociedade e de inclusive obrigações da igreja.

Em outro campo, os artistas e arquitetos se inspiravam no progresso tecnocientifico para criar sua obra. (nasceram muitos movimentos na época) Todos os valores culturais estavam bem definidos, portanto: "modernidade sólida". Entretanto, como disse acima, ela durou até os anos 1990, quando ocorre uma deteriorização de todas as instituições e valores que citei.Basta analistar os fatos: na política brasileira assistimos o espetáculo da corrupção (o que era o oposto no período Getulista); na política americana vemos o show da desregulamentação e da especulação financeira.

Os dogmas da igreja estão mais desacreditados do que nunca, por conta do avanço das pesquisas em genética e biotecnologia. No campo da moral, não há mais um papel para o homem (aquele sujeito de terno, gravata e chapéu). Portanto, é o que o Bauman chama da "modernidade líquida". Marshall Berman, um sociólogo ainda vivo, diz: "Tudo o que é sólido desmancha no ar". Ou seja: não há mais dogmas, crenças, instituições. Não há nenhuma referência clara para onde a sociedade deva seguir. No campo das artes, não existem idéias que inspirem movimentos revolucionários como as que surgiram na Belle Époque e Renascença (para citar um exemplo mais antigo).

Mas então porque tudo isso ocorreu? Voltemos ao divisor de águas que foi o holocausto nazista. Imagine a seguinte cena, Lobo: Um soldado nazista acorda pela manhã, toma seu café, beija os filhos, a esposa, e sai para trabalhar no genocídio de judeus em um campo de concentração. Isso extrapola os limites da realidade e da razão; e para Bauman, esse é o ponto crucial da decadência da "modernidade sólida".

Para mim, Bauman é um grande pensador contemporâneo; simpatizo demais com seu raciocínio. Acho toda sua crítica muito construtiva, principalmente para os artistas que buscam inspiração.



domingo, 4 de janeiro de 2009

A Bendição das Línguas


É possível estabelecer uma interessante analogia entre o mito da Torre de Babel e a realidade pós-moderna. No Gênesis, o primeiro livro do Antigo Testamento, Deus, ao perceber que os homens construíram a torre na tentativa de alcança-lo, vociferou, como castigo, que cada construtor falasse uma língua diferente. A maldição impossibilitou que o trabalho continuasse, a torre foi abandonada e os indivíduos foram dispersos para diferentes partes do mundo.

Estamos em pleno século XXI. Mais do que uma revolução tecnológica, a internet trouxe uma ruptura histórica comparável a dois momentos: revolução do tipo móvel e Revolução Industrial. Atualmente chamada de “Web 2.0”, ela está proporcionando uma verdadeira e radical transformação no modo de nos comunicarmos, através das chamadas redes sociais e dos blogs, que facilitaram a interação entre pessoas dos quatro cantos do planeta.

O My Space, com 110 milhões de usuários ativos é a rede que lidera, segundo pesquisas, o ranking das redes sociais mais utilizadas no mundo. Um em cada quatro moradores dos EUA navega pelo site neste momento. Abaixo da lista, no segundo lugar, vem o Facebook, que ultrapassa 60 milhões. Com eles, usuários podem criar um perfil, inserir fotos e trocar mensagens entre grupos de amigos.

Já o Orkut, da empresa Google, foi a rede que mais alcançou popularidade no Brasil, sobretudo entre os jovens. São mais de 40 milhões de usuários. Um fenômeno para um país em que quase 60% da população nunca usou internet. E com suas tantas ferramentas de interatividade, uma chama a atenção pela forma com que agrupa diversos tipos de pessoas e tribos: as comunidades. Trata-se de um espaço em que usuários podem compartilhar de assuntos relacionados a um tema central, de interesse em comum. Estes giram em torno de movimentos sociais, culturais, a nova turnê do artista predileto, personalidades, compra e venda de produtos, contatos profissionais e muitos outros. Algumas comunidades ultrapassam 1 milhão de usuários.

Mas, para quem procura uma forma individual de compartilhar textos, idéias e pensamentos, os “blogs” demonstram ser o grande aliado. Também chamados de “Weblogs”, “Blogues” ou “Cadernos Digitais”, a utilização dessas páginas vem crescendo assustadoramente nos últimos anos. Segundo uma pesquisa realizada no início deste ano pela Intel, eles já são usados por mais de 170 milhões de pessoas em todo o mundo; 5,9 milhões só no Brasil. Muitos escritores, políticos e artistas aderiram ao recurso para manter um contato mais direto com seus leitores.

O ponto-chave do sucesso dessas ferramentas parece ir além dos notáveis recursos de interatividade, pois todos têm um importante e decisivo fator: descrever o universo particular de cada indivíduo. Quando se cria um perfil de usuário, seja no My Space, Facebook, Orkut ou Blog, a descrição das características pessoais se tornam uma espécie de identidade virtual. Dados como o nome, idade, profissão, gostos, interesses etc, são uma espécie de cartão de visitas para outros usuários. Muitos recrutadores de profissionais, por exemplo, costumam avaliar o perfil do candidato pela descrição disponível no Orkut, sobretudo pelas comunidades com que se identifica.

Se Deus impossibilitou a construção da Torre de Babel com a maldição das línguas, no mito bíblico, as redes sociais e os blogs possibilitaram exatamente o contrário; porque foram construídas com o objetivo de edificar toda uma "torre social", a partir da linguagem e do universo particular de cada indivíduo. E mais: é um instrumento libertário, sem fronteiras. Com eles, o usuário ganha a liberdade para se relacionar com quem quiser, escrever o que se pensa e compartilhar de assuntos com pessoas que falam os mais diferentes "tipos de língua" (no sentido cultural, é claro), mesmo que às vezes ocorra algo parecido como uma guerra entre hebreus e filisteus.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A Fronteira da Forma


"Cada época sonha a seguinte, sob a forma de imagens em que o arcaico, impregnando-se do novo, gera a utopia.” Walter Benjamin

Desde a remota construção das pirâmides no Egito, até o mais recente e moderno edifício de aço, uma admirável característica da humanidade está na sua extraordinária capacidade artística de sintetizar uma época por meio da arquitetura.

Movido por essa constatação que adquiri em um momento de "insight", não me contive e fui fazer uma visita a uma livraria famosa de São Paulo, com o objetivo de comprar algum livro que descrevesse a história dessa milenar atividade. Porém, lá encontrei uma edição que ilustrava o que de mais contemporâneo há sobre arquitetura na Europa dos dias de hoje... Tamanho foi o interesse em me aprofundar no assunto, que resolvi consultar peritos no tema na tentativa de compreender por que os arquitetos de vanguarda projetam e criam obras no mínimo bastante arrojadas.

Contemporany Jewish Museum - São Francisco - CA - EUA - 2008

Rodrigo Queiroz, professor e doutor de projetos de arquitetura da FAU-USP, explicou que para compreender a arquitetura contemporânea é preciso entender as fases e as transformações arquitetônicas dos últimos 100 anos. "A arquitetura dos dias de hoje é uma continuidade da arquitetura pós-moderna, que começou nos anos 1960 e durou até o início da década de 1990. Tinha por objetivo criticar a ideologia do movimento moderno, que foi uma denominação para a arquitetura produzida até o fim dos anos 1950", explica. Entretanto, será que a arquitetura do século XXI, que é denominada como contemporânea, está ligada a algum movimento que pretenda criticar algo?

A frase “tudo que é sólido desmancha no ar”, do sociólogo americano Marshall Berman pontua o fim dos movimentos arquitetônicos do século XX. E quem a explica é Luís Henrique Haas Luccas, arquiteto, mestre e doutor em arquitetura pela UFRGS. “A meta da arquitetura produzida no século XX, era difundir uma arte que pudesse servir de modelo a uma construção social considerada perfeita e padronizada”, disse e completa: “entretanto, com a contra-cultura, nos anos 1960, esses valores se "dissolveram", e o ideal de arquitetura passou a ser o pós-moderno, que foi uma crítica a idéia de padronização da arquitetura de até então", conclui.

Studio Wiel - Mallorca - Espanha - 2003

A tentativa de se estabelecer um denominador comum na arquitetura moderna perde força na década de 1970, quando a sociedade passa por um processo de pluralidade e modernização tão intensa nos campos da cultura, da política e das artes, que toda forma de se impor um estilo em comum soava absurda. “Os axiomas da arquitetura moderna gradualmente deram lugar à diversificação de linguagens”, diz Luiz Henrique. Dentro desse contexto nasce a idéia da arquitetura pós-moderna, e marca o fim das ideologias na arquitetura. “A arquitetura pós-moderna declara o fim de todos os sistemas de significados” (Manuel Castells).

Mas qual seria então a proposta da arquitetura contemporânea? Nenhuma. Com radical ruptura de toda e qualquer definição de padrões, os arautos da arquitetura do século XXI buscam em grande parte as inspirações individuais. “É notório que o caminho para uma arquitetura atual passa pelo retorno da abstração, e ocupa um lugar destacado como forma de transpor o existente, o prosseguir”, abstrai Luiz Henrique, e completa: "Vale salientar, também, que a valorização do consumo e das tecnologias de comunicação pela sociedade contribuem para o entusiasmo da criação arquitetônica. Não resta dúvida que merecerá ser definida como contemporânea a arquitetura representativa do momento atual, que retrata o patamar tecnológico e a sensibilidade estética de nosso tempo”, explica.

Nítidos exemplos da nova “onda” arquitetônica podem ser conferidas em diversas partes do mundo. O “Royal Ontário Museum” – Canadá - 2007, e o “Studio Wiel” – Espanha - 2003, ambos concebidos pelo arquiteto americano Wendy James, como também, o “Contemporany Jewish Museum”, da empresa WRNS Arquitecture, inclusive inaugurado em junho deste ano na cidade de São Francisco – EUA, são ótimas referências.

A arquitetura contemporânea não pretende servir de modelo a futuros movimentos, ou criticar as anteriores. Entretanto, se a arquitetura contemporânea carrega consigo alguma síntese da época atual, já não se sabe ao certo, por conta de sua recente aparição nos diversos cenários da sociedade. Rodrigo Queirós explica que “Somente quando esta época se tornar um passado distante saberemos o que ela nos representou em termos de arquitetura", pontua.

Royal Ontario Museum - Toronto - Canadá - 2007

domingo, 31 de agosto de 2008

Morte da Indústria Fonográfica

A poderosa indústria fonográfica nunca mais foi a mesma após o advento de softwares para produção musical independente. Na internet, programas que permitem a troca de arquivos "mp3" entre usuários contribuiram de forma decisiva para derrubar o milionário mercado do cd. As grandes produtoras que lançaram no século passado ícones da música "pop", como Beattles e Rollings Stones, se vêem agora na mira de uma avalanche de novas plataformas de mídia que ameaçam soterrar seu core-business.

Pensando nisso, eu e mais quatro colegas do curso de jornalismo da faculdade UniFIAM-FMU resolvemos criar para o nosso TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), um vídeo-documentário sobre o polêmico assunto. O material conta com a participação de artistas como Paulo Ricardo, Bnegão, produtores musicais e de especialistas sobre o tema.

Será que o mercado fonográfico está morrendo?






O diagnóstico da Pós-modernidade


Acompanhei um dos últimos temas do programa "A Invenção do Contemporâneo", da TV Cultura, sobre a conjuntura que caracteriza o pensamento filosófico de nosso tempo: a pós-modernidade (post-modernism). Sob a coordenação do grande filósofo e professor da PUC, Luiz Felipe Pondé, e a participação de convidados de diversos campos acadêmicos (sobretudo psicanálise e sociologia), o programa contribuiu de forma significativa para que ampliasse meu conhecimento sobre a sociedade contemporânea.

O primeiro episódio foi o mais interessante. O filósofo Pondé descreveu o processo de transição do período moderno para o pós-moderno, e definiu suas principais diferenças. Pois bem. O período da idade moderna, específico da história do ocidente, tem início, como se sabe, no século XVI, aproximadamente no ano de 1500. É definido pela maioria dos estudiosos como a época em que se inicia a substituição do modo de produção feudal pelo modo de produção capitalista. Esta transição modificou a maneira de como se pensar e agir, pois, é quando inicia-se a denominada filosofia moderna, marcada pelos primeiros sinais do uso da razão sem a dependência direta dos valores religiosos.

Segundo Pondé, o período também foi assinalado por um sistema de idéias que se prolongou até o final do século XX, entre eles, a de que somente a razão e a ciência poderiam conduzir o homem rumo a um suposto progresso final da civilização. Francis Bacon (1561-1626), político, filósofo e ensaísta inglês, destacou-se entre os filósofos com uma obra literária que defendia a importância do progresso da ciência. Johannes Kepler (1571-1630), astrônomo alemão, foi um dos primeiros cientistas a separar a observação física dos astros da superstição astrológica. O resultado destas idéias junto às transformações sociais da época contribuíram para que, ao longo de 500 anos de história, a sociedade ocidental do século passado tomasse a forma como a conhecemos, porém, acompanhada por duas observações: acomodada e ideológicamente frustrada.

Se por um lado, o homem ocidental do século XX experimentou um mundo mais cômodo, transformado pela razão e pela ciência, por outro, experimentou um "mal-estar" generalizado, causado pela promessa não cumprida de que o benefício destas transformações abarcariam a resposta final para os problemas da sociedade. É dentro deste contexto que o conceito de pós-modernidade entra em cena.

Diversos aspectos caracterizam este novo paradigma filosófico. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês citado diversas vezes durante o programa, utiliza um conceito dado pelo filósofo americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882), para definir alegoricamente o homem pós-moderno, como: "um andarilho que corre sobre uma fina camada de gelo. Ele não tem um destino certo. Mas sabe que, se parar, o piso racha e morre afogado".

Pondé completa que a sociedade pós-moderna atravessa uma "nevasca". Além de não haver nenhuma referência clara para onde se deve ir, não há tempo de escolha, porque, conforme a proposição de Waldo Emerson, se ela parar, o piso de gelo racha.