É possível estabelecer uma interessante analogia entre o mito da Torre de Babel e a realidade pós-moderna. No Gênesis, o primeiro livro do Antigo Testamento, Deus, ao perceber que os homens construíram a torre na tentativa de alcança-lo, vociferou, como castigo, que cada construtor falasse uma língua diferente. A maldição impossibilitou que o trabalho continuasse, a torre foi abandonada e os indivíduos foram dispersos para diferentes partes do mundo.
Estamos em pleno século XXI. Mais do que uma revolução tecnológica, a internet trouxe uma ruptura histórica comparável a dois momentos: revolução do tipo móvel e Revolução Industrial. Atualmente chamada de “Web 2.0”, ela está proporcionando uma verdadeira e radical transformação no modo de nos comunicarmos, através das chamadas redes sociais e dos blogs, que facilitaram a interação entre pessoas dos quatro cantos do planeta.
O My Space, com 110 milhões de usuários ativos é a rede que lidera, segundo pesquisas, o ranking das redes sociais mais utilizadas no mundo. Um em cada quatro moradores dos EUA navega pelo site neste momento. Abaixo da lista, no segundo lugar, vem o Facebook, que ultrapassa 60 milhões. Com eles, usuários podem criar um perfil, inserir fotos e trocar mensagens entre grupos de amigos.
Já o Orkut, da empresa Google, foi a rede que mais alcançou popularidade no Brasil, sobretudo entre os jovens. São mais de 40 milhões de usuários. Um fenômeno para um país em que quase 60% da população nunca usou internet. E com suas tantas ferramentas de interatividade, uma chama a atenção pela forma com que agrupa diversos tipos de pessoas e tribos: as comunidades. Trata-se de um espaço em que usuários podem compartilhar de assuntos relacionados a um tema central, de interesse em comum. Estes giram em torno de movimentos sociais, culturais, a nova turnê do artista predileto, personalidades, compra e venda de produtos, contatos profissionais e muitos outros. Algumas comunidades ultrapassam 1 milhão de usuários.
Mas, para quem procura uma forma individual de compartilhar textos, idéias e pensamentos, os “blogs” demonstram ser o grande aliado. Também chamados de “Weblogs”, “Blogues” ou “Cadernos Digitais”, a utilização dessas páginas vem crescendo assustadoramente nos últimos anos. Segundo uma pesquisa realizada no início deste ano pela Intel, eles já são usados por mais de 170 milhões de pessoas em todo o mundo; 5,9 milhões só no Brasil. Muitos escritores, políticos e artistas aderiram ao recurso para manter um contato mais direto com seus leitores.
O ponto-chave do sucesso dessas ferramentas parece ir além dos notáveis recursos de interatividade, pois todos têm um importante e decisivo fator: descrever o universo particular de cada indivíduo. Quando se cria um perfil de usuário, seja no My Space, Facebook, Orkut ou Blog, a descrição das características pessoais se tornam uma espécie de identidade virtual. Dados como o nome, idade, profissão, gostos, interesses etc, são uma espécie de cartão de visitas para outros usuários. Muitos recrutadores de profissionais, por exemplo, costumam avaliar o perfil do candidato pela descrição disponível no Orkut, sobretudo pelas comunidades com que se identifica.
Se Deus impossibilitou a construção da Torre de Babel com a maldição das línguas, no mito bíblico, as redes sociais e os blogs possibilitaram exatamente o contrário; porque foram construídas com o objetivo de edificar toda uma "torre social", a partir da linguagem e do universo particular de cada indivíduo. E mais: é um instrumento libertário, sem fronteiras. Com eles, o usuário ganha a liberdade para se relacionar com quem quiser, escrever o que se pensa e compartilhar de assuntos com pessoas que falam os mais diferentes "tipos de língua" (no sentido cultural, é claro), mesmo que às vezes ocorra algo parecido como uma guerra entre hebreus e filisteus.
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